O Quilombo de Casimiro: pesquisadora resgata triste história da expulsão e extermínio de ex-escravos por imigrantes suíços no município

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Pesquisadora Renata Lima ao lado de Seu Alci, remanescente quilombola e antigo morador da região (Foto: Márcio Alves / Agência O Globo

Mestra em História pela Universidade Federal Fluminense, Renata Lima “embarcou”, há um ano, no resgate de um triste acontecimento no município de Casimiro de Abreu. Intrigada pelo curioso nome do bairro Quilombo, na região serrana da cidade, a pesquisadora acabou descobrindo que o espaço era, de fato, um Quilombo, com cerca de três mil moradores, com forte produção agrícola de subsistência.

Imigrantes suíços obtiveram a chancela do então imperador Dom Pedro II para ocupar a área, o que deu início aos conflitos entre europeus e africanos. O ano de 1823 marcou o começo da disputa, que terminou com a quase totalidade dos ex-escravos dizimada e a ocupação da terra pelos invasores.

Na década de 50, a última família restante que ainda residia na área foi expulsa e teve sua casa queimada, tudo sob a autorização do então prefeito Didi Motta. Hoje, já não moram mais negros no Quilombo.

A cultura africana também foi apagada pelos suíços, cujos descendentes propuseram medidas para minimizar a importância da influência africana na constituição do município, como a criação de um 5º distrito.

— Os suíços dizimaram famílias inteiras de africanos. Encontrei até um mapa revelando que os europeus queriam transformar o distrito onde está o Quilombo em Nova Suíça, negando por completo o papel dos escravos e de seus descendentes em nossa sociedade – afirmou Renata ao jornal O Globo.

Os poucos descendentes de quilombolas vivos ainda sofrem com as lembranças. O aposentado Alci Silva tem, pelas contas da própria família, 103 anos. Ele nasceu e cresceu no Quilombo, de onde, ao lado dos outros últimos sete moradores, foi expulso. Mas, antes de fazer as malas, conquistou o coração de uma filha de suíços, com quem teve três filhos. Lúcido, atualmente ele mora a 40 minutos do bairro, ao qual preferiu não retornar para não sofrer.

— A terra era muito boa para o plantio de trigo e de aipim. Trabalhávamos duro, mas era bom viver lá. Não tenho ressentimentos, apenas saudade — disse Alci ao jornal O Globo.

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